Opinião

10 mar 21 | 8h07

O lado devastador da pandemia

O lado devastador da pandemia
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Os últimos dias foram duros! Não somente para os profissionais da saúde, mas para qualquer ser humano preocupado com a próprio bem estar e com o mínimo senso de humanidade. Impossível não ficar chocado ou abalado com a notícia de falecimento ou do estado de saúde de pessoas, conhecidas ou não, que estão ou estiveram internadas no Hospital São Francisco lutando contra o coronavírus. Particularmente, eu não acreditei - custo ainda a acreditar - que homens e mulheres que no mês passado eu vi circulando naturalmente pelas ruas da cidade e seguindo sua rotina, pegaram o vírus, precisaram de internação, definharam com a doença, caíram na UTI e algumas delas faleceram. Conheço três casos que tiveram esse triste desfecho. Também me choca o fato de que pessoas que até então estavam saudáveis, rendendo na vida profissional e preenchendo os próprios lares de alegria, estão nesse momento deitados em um leito de hospital com dificuldades para respirar e ladeadas pela incerteza que somente esse imprevisível vírus pode ocasionar.


Não quero aqui me solidarizar somente com a "linha de frente", composta por médicos e enfermeiros que estão numa luta hercúlea e sem previsão de acabar. Mas quero deixar - se isso é possível - o meu amparo às pessoas que perderam alguém ou que estejam sofrendo com os efeitos colaterais desse vírus. Não há palavras que possam simbolizar o que vocês estão sentindo. Nesse momento não há nada que possa exprimir isso. Somente o tempo vai dar a dimensão exata dessa fatalidade particular em vossas vidas.


Imaginem a jovem gestante, que estava esperando ansiosa a chegada do filho, teve a vida interrompida pelas consequências do coronavírus e não teve a chance de beijar ou amamentar o bebê, que sobreviveu graças à uma cesárea de emergência; 


Imaginem o jovem pai de família, cheio de planos e uma carreira profissional promissora pela frente, ter a vida ceifada após uma árdua luta num leito de UTI, deixando para trás esposa e filhos; 


Imaginem uma avó, que estava contando com o fim da pandemia ainda neste ano para voltar a reunir a família como nos velhos tempos e confraternizar a vida e as datas comemorativas;


Imaginem o avô, que estava aguardando voltar do hospital para ensinar aquele velho truque para os netos e lamentavelmente teve uma piora no quadro clínico e evoluiu para óbito em poucos dias, deixando uma família inteira sem chão;


Imaginem como está o emocional de alguém, que teve a perda de um pai ou uma mãe há pouco tempo para a doença e está com outra pessoa próxima internada no hospital, rezando para que o desfecho seja diferente;


Os exemplos acima são reais e mostram um recorte da história que aconteceu e poderia ter acontecido na vida dos envolvidos.


Soma-se a isso um outro detalhe cruel imposto pela pandemia. Trata-se da impossibilidade de tocar no corpo e proporcionar um ritual digno de despedida para a vítima do coronavírus. Em função do contágio, o corpo é imediatamente colocado em um caixão lacrado e tem que ser sepultado em poucas horas. Por mais obreira que tenha sido a pessoa em vida, o ato de despedida é indigno.


Ninguém merece passar por isso, nem mesmo no leito de morte.


Por fim, imaginem como vai ficar a vida dos que seguem por aqui, enlutados. Assim que estivermos no novo normal, sempre irá faltar alguém nas fotografias de casamentos, aniversários, festas de Natal, Páscoa e Reveillón. Em qualquer circunstância, vai ficar faltando alguém....que o covid-19 levou embora!

Jocimar Soares
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10 mar 21 | 8h07 Por Jocimar Soares

O lado devastador da pandemia

O lado devastador da pandemia

Os últimos dias foram duros! Não somente para os profissionais da saúde, mas para qualquer ser humano preocupado com a próprio bem estar e com o mínimo senso de humanidade. Impossível não ficar chocado ou abalado com a notícia de falecimento ou do estado de saúde de pessoas, conhecidas ou não, que estão ou estiveram internadas no Hospital São Francisco lutando contra o coronavírus. Particularmente, eu não acreditei - custo ainda a acreditar - que homens e mulheres que no mês passado eu vi circulando naturalmente pelas ruas da cidade e seguindo sua rotina, pegaram o vírus, precisaram de internação, definharam com a doença, caíram na UTI e algumas delas faleceram. Conheço três casos que tiveram esse triste desfecho. Também me choca o fato de que pessoas que até então estavam saudáveis, rendendo na vida profissional e preenchendo os próprios lares de alegria, estão nesse momento deitados em um leito de hospital com dificuldades para respirar e ladeadas pela incerteza que somente esse imprevisível vírus pode ocasionar.


Não quero aqui me solidarizar somente com a "linha de frente", composta por médicos e enfermeiros que estão numa luta hercúlea e sem previsão de acabar. Mas quero deixar - se isso é possível - o meu amparo às pessoas que perderam alguém ou que estejam sofrendo com os efeitos colaterais desse vírus. Não há palavras que possam simbolizar o que vocês estão sentindo. Nesse momento não há nada que possa exprimir isso. Somente o tempo vai dar a dimensão exata dessa fatalidade particular em vossas vidas.


Imaginem a jovem gestante, que estava esperando ansiosa a chegada do filho, teve a vida interrompida pelas consequências do coronavírus e não teve a chance de beijar ou amamentar o bebê, que sobreviveu graças à uma cesárea de emergência; 


Imaginem o jovem pai de família, cheio de planos e uma carreira profissional promissora pela frente, ter a vida ceifada após uma árdua luta num leito de UTI, deixando para trás esposa e filhos; 


Imaginem uma avó, que estava contando com o fim da pandemia ainda neste ano para voltar a reunir a família como nos velhos tempos e confraternizar a vida e as datas comemorativas;


Imaginem o avô, que estava aguardando voltar do hospital para ensinar aquele velho truque para os netos e lamentavelmente teve uma piora no quadro clínico e evoluiu para óbito em poucos dias, deixando uma família inteira sem chão;


Imaginem como está o emocional de alguém, que teve a perda de um pai ou uma mãe há pouco tempo para a doença e está com outra pessoa próxima internada no hospital, rezando para que o desfecho seja diferente;


Os exemplos acima são reais e mostram um recorte da história que aconteceu e poderia ter acontecido na vida dos envolvidos.


Soma-se a isso um outro detalhe cruel imposto pela pandemia. Trata-se da impossibilidade de tocar no corpo e proporcionar um ritual digno de despedida para a vítima do coronavírus. Em função do contágio, o corpo é imediatamente colocado em um caixão lacrado e tem que ser sepultado em poucas horas. Por mais obreira que tenha sido a pessoa em vida, o ato de despedida é indigno.


Ninguém merece passar por isso, nem mesmo no leito de morte.


Por fim, imaginem como vai ficar a vida dos que seguem por aqui, enlutados. Assim que estivermos no novo normal, sempre irá faltar alguém nas fotografias de casamentos, aniversários, festas de Natal, Páscoa e Reveillón. Em qualquer circunstância, vai ficar faltando alguém....que o covid-19 levou embora!